quarta-feira, 6 de julho de 2011

Procurando vaga...

Esse texto eu escrevi já há alguns meses atrás a pedido da Mari Hart para postar no blog dela mas hoje o tomo emprestado para que mais uma vez as pessoas possam refletir sobre o efeito de seus comportamentos na vida de terceiros. Gostaria muito que esse texto tivesse se tornado inadequado ao longo desses meses mas, não, ele continua sendo totalmente pertinente. Continuo passando cotidianamente por situações de desrespeito, por isso aqui vai mais uma vez:



Se Brasília já é uma cidade difícil pra qualquer pessoa sem deficiência alguma se locomover sem carro, imaginem para quem tem qualquer tipo de deficiência. Depois de alguns anos morando aqui, ouvindo repetidamente as pessoas me perguntarem pelos mais diversos motivos "Por quê você não compra um carro?" uma pergunta me bateu diferente e, enfim, eu mesma comecei a me fazer essa pergunta. Trabalhando há quase um ano e gastando quase todo o dinheiro que eu recebia em táxi para ir e vir do trabalho, numa cidade em que o transporte público é quase inexistente, comecei a achar razoável a compra do carro.

Finalmente encontrei o carro dos meus sonhos, lindo e confortável. Comprei. Pensei "agora meus problemas estão resolvidos. Não dependo mais dos estúpidos motoristas de táxi da cidade com sua má vontade para me atenderem; não vou mofar horas esperando por eles e chegar atrasada praticamente sempre em quase todos os lugares (aqui eles sequer dão previsão de em quanto tempo chegam e agendar um táxi é o mesmo que nada) e, enfim, terei liberdade total para ir e vir a todos os lugares da cidade!!!" Triste engano. Tirando a parte de ter me livrado da cara feia dos motoristas, os atrasos se tornaram ainda maiores e por motivos, não sei se mais estúpidos ou tanto quanto, e a liberdade... nunca as barreiras e impossibilidades se fizeram tão presentes.

Logo que comprei o carro os colegas de trabalho foram super solidários, conversaram com o administrador do prédio à respeito da vaga de deficientes que fica bem em frente a entrada, pedindo que tentasse ter um cuidado maior em relação a ocupação desta. Este conversou com os guardadores de carro fazendo o mesmo pedido e, de carro em mãos, radiante pela conquista, comecei a ir e vir do trabalho motorizada. 

Num mês em que Brasília se torna ainda mais vazia do que já é de costume, como num passe de mágica, nos primeiros dias, lá estava a vaga, vazia, aguardando por mim. Não demorou muito, menos de 2 semanas, para que um belo dia, ao retornar do almoço me deparasse com a vaga ocupada. Não havia ainda pensado na possibilidade disso acontecer, afinal, era tudo ainda muito novo para mim. Ao me deparar com a situação fiquei transtornada sem saber o que fazer. Paralisei e em questão de segundos uma fila gigantesca de carros se fez atrás de mim. Começaram a buzinar embora seja raro se ouvir buzina em Brasília (mas o Setor Bancário Norte é capaz de estressar qualquer um que entre alí de carro ao se deparar com retornos trancados por carros parados e filas duplas de ambos os lados). Rapidamente encostei meu carro na fila dupla de carros parados para que eu deixasse o fluxo andar enquanto organizava meus pensamentos em busca de alguma solução. Em menos de um minuto parada, Lei de Murphy funcionou, o carro que eu estava prendendo resolveu querer sair. Pânico e pensamentos agitados novamente. 

Eu, que dirigia há menos de 2 semanas, precisava tirar meu carro daquele micro espaço, ao som de buzinas, com uma fila de carros passando ao meu lado. Enfim, consegui e quando vi, lá estava a solução do meu problema. Uma vaga vazia pra mim. Entrei sem nem pensar, claro. Ufa, enfim, o problema havia sido solucionado! Terrível engano. Não, não estava resolvido!!! Ao abrir a porta do carro me deparei com a realidade de que não posso estacionar em vaga alguma que não a de deficiente. Ao meu lado não cabia nada além dos dois pneus da minha cadeira. Como montar a cadeira e sair do carro?! 

Mesmo depois da vida inteira como cadeirante e convivendo com vagas ocupadas, foi nesse momento em que pela primeira vez passei por isso sozinha, que percebi o quão estúpida é uma pessoa que pára numa vaga destinada a deficientes sem necessitar. Nunca me senti tão impotente. Fechei a porta do carro, subi os vidros, liguei o ar, o som bem alto e chorei. Simplesmente chorei. Era só o que eu podia fazer sozinha ali. Desejei não ser independente e jamais ter precisado passar por aquela situação. Enquanto isso, meu atraso na volta do almoço aumentava e o desespero também. Enfim, me sentindo completamente derrotada e humilhada telefonei pra uma colega de trabalho que me ajudou a resolver a questão. É ridículo e humilhante você não poder fazer coisas simples, não pela sua impossibilidade mas sim pela estupidez humana.

Bloqueei por muito tempo o ir e vir sozinha ao volante até que, com ajuda dos meus amigos, superei o medo da boçalidade alheia. Mais uma vez colegas interferiram por mim junto ao administrador do prédio e até mesmo aos guardadores de carro enquanto os amigos tentavam me tornar confiante das mais diversas maneiras. Todos foram muito acolhedores como sempre. O administrador com as melhores das intenções, disponibilizou cones para sinalizar ainda mais a vaga. Voltei a ir e vir sozinha curtindo dirigir, coisa que amo. E voltei a me deparar com a vaga ocupada. 

Dos cinco dias na semana, ao menos três sou obrigada a lidar com a falta de educação da população. Tento sempre me lembrar que a incapacidade não é minha e sim, dos que não conseguem respeitar os direitos alheios mas, por vezes, ainda páro e as lágrimas escorrem.Os cones que deveriam ajudar se tornaram apenas um impecillho à mais porque eu como cadeirante não posso descer para retirá-los e os estúpidos aproveitadores simplesmente saem do carro, retiram os cones e param seus carros.

PS: Alguns taxistas eram sim muito prestativos e gentis, pena serem a minoria.

 Dedico esse texto a Mari que me pediu que o escrevesse e que passa por dificuldade semelhante constantemente. E à duas amigas, Thaís e Manú, que frequentemente me ajudam a superar esse transtorno.

4 comentários:

  1. Cami, que post!
    Maravilhoso, pensei emfazer um apelo no meu blog tb, se vc me ceder esse post gostaria de falar sobre isso um dia! Vamos combinar?!
    Ficou realmente bom.
    É triste demais a falta de respeito que as pessoas tem! Eu realmente sinto muito por vc e outras pessoas passarem por isso por falta de educação! É revoltante!

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  2. Claro Cami! Qdo vc quiser... esse post um tempinho já mas infelizmentecomo disse escrevi pra outro blog há um tempinho já mas infelizmente ele não perde a pertinência. Quanto mais pessoas quiserem falar no assunto, melhor.
    Bjos e obrigada.

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  3. Muito bom Cami! temos mesmo que incentivar o respeito ao próximo!

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  4. Emocionante esse post. Lamento por você e por todos que tenham que passar por isso, e imagino seja mesmo de chorar.

    Beijos

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